
São
Paulo, anos 60
Por
Neno Silveira
Economista e técnico em abastecimento

Caixaria X Ônibus X Povo
Até
o início da década de 1960, o comércio atacadista
de hortigranjeiros era realizado quase que totalmente na zona central
da cidade, dentro do Mercado Municipal e no seu entorno. O mercado
foi planejado em 1928, quando São Paulo tinha 900.000 habitantes,
e começou a funcionar em 1933, quando a população
alcançara 1,5 milhão.
Com o crescimento da cidade, o espaço do "Mercadão"
foi ficando pequeno para atender à demanda e para abrigar
um número cada vez maior de produtores e comerciantes. A
solução foi ir avançando sobre as ruas adjacentes,
como mostram algumas das fotos desta página, onde aparecem
escarolas, berinjelas e outras verduras e legumes espalhados em
plena avenida Senador Queiroz, uma coisa totalmente impensável
nos dias de hoje e que já devia representar um grande transtorno
naquela época.
Um relatório de 1965, elaborado por técnico do então
recém criado (e, na época, não inaugurado)
Ceasa - Centro Estadual de Abastecimento S.A, dizia do entreposto
da Cantareira que:
"O
comércio atacadista de produtos horti-frutícolas (...)
extravasou os limites do diminuto mercado, espraiando-se pelas ruas
adjacentes e próximas do antigo local. O crescimento, mesmo
desordenado, obedeceu a uma lei de concentração natural,
estabelecendo uma especialização zonal do comércio
atacadista, como segue:
a)
frutas nacionais: Rua da Cantareira, Rua Barão de Duprat,
Rua Pagé, Rua Carlos de Souza Nazareth;
b) banana: confluência das Ruas Barão de Duprat e Rua
da Cantareira;
c) verduras: Entreposto da Cantareira, Praça Santo Antonio
do Mercado Central;
d) batata, cebola, alho: Rua Américo Brasiliense, Rua Mendes
Caldeira, Rua Santa Rosa;
e) aves e ovos: Praça Fernando Costa, Rua 25 de Março."
E os
transtornos não se limitavam ao que acontecia nas proximidades
do mercado; isto era apenas a parte visível do problema para
quem morava na cidade. O que as pessoas não viam, no entanto,
elas já deviam estar sentindo no bolso. No final dos anos
50, os estudos da FAO (Fundo das Nações Unidas para
a Agricultura e Alimentação) realizados para orientar
a implantação de novo mercado no Jaguaré (o
futuro Ceasa, depois Ceagesp) mostravam que o estrangulamento do
comércio, em função da falta de espaço
no centro, já se refletia nas zonas de produção
e, obviamente, nos volumes ofertados e nos preços.
Muitos produtores, localizados na periferia da capital, não
tinham mais como aumentar suas áreas de plantio ou iniciar
novas áreas, diziam os técnicos, uma vez que não
havia como escoar seus produtos. Inúmeras cargas chegavam
à região do mercado e ficavam rodando até achar
um lugar para descarregar, missão esta que podia ser extremamente
penosa. Os pesquisadores da FAO acompanharam a via sacra de uma
partida de tomate que chegou a circular 37 vezes antes de ter um
destino.
E não existia, na época, o comércio direto
com as zonas de produção que hoje algumas médias
e grandes redes de varejo praticam. O comércio varejista
era exclusivamente dos pequenos e estes dependiam inteiramente do
mercado atacadista para se abastecer. Assim, com a confusão
armada em torno do Mercado Municipal, pode-se imaginar o aumento
de custo que era imposto às mercadorias antes que elas chegassem
às mãos do comprador final.
Isto sem falar dos constantes transbordamentos do Rio Tamanduateí
que inundavam a região do mercado, paralisando o comércio
e causando enormes prejuízos, e que acabaram por convencer
os comerciantes que o melhor mesmo era transferir as atividades
para o novo entreposto na zona oeste. A cidade, então, já
contava com seus cinco milhões de habitantes.
Estas singelas recordações são para ponderar
que há quarenta anos já se chegara à conclusão
de que a região central de São Paulo era totalmente
inadequada para abrigar o comércio atacadista de hortigranjeiros.
Entretanto, neste início de século 21, vendo a persistência
e, inclusive, o crescimento da atividade no coração
de uma cidade com a população mais que duplicada,
o que se pode concluir? O que teria mudado neste tempo todo?
O comércio de hortigranjeiros, com certeza, não foi.
O que se vê hoje é o que se via ontem: as mesmíssimas
embalagens, os mesmos carrinhos de transporte, o mesmo jeitão
arcaico e informal de negociar. Teria, então, mudado a cidade?
Ficou mais livre, mais leve e propícia na região central?
É óbvio que não! A única e desoladora
explicação é a de que os níveis de exigência
e de expectativa são e sempre serão declinantes na
metrópole ingovernável. O que ninguém mais
aceitava passa a ser normal novamente. A qualidade de vida que se
almejava transforma-se num cada um por si delirante. E saiam da
frente!
FOTOS
- CLIQUE PARA AMPLIAR (arquivo pessoal de Neno Silveira)
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