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Mercadão perde o pioneiro da mortadela

Aos 79 anos, morre o imigrante que trouxe a tradição da mortadela ao Mercado Municipal da Cantareira


Paulo F.

Dificilmente algum freqüentador do Mercado Municipal Paulistano desconhece o Bar do Mané, o boteco que criou a tradição do tão famoso e generoso sanduíche de mortadela do Mercadão. Pioneiro no setor, o imigrante português Manoel Cardoso Loureiro, que completaria 80 anos no dia 18 de dezembro, morreu no dia 3.

O Mané, como era chamado por todos, começou a trabalhar no Mercadão aos 9 anos de idade junto com seu pai, Jeremias, que chegou ao Brasil na década de 20 e abriu uma lanchonete no antigo mercado do Parque D. Pedro. "Era um local conhecido por seu café expresso e, quando o Mercadão foi inaugurado em 1933, meu avô decidiu transferir o estabelecimento para cá. Anteriormente, ele voltou a Portugal para buscar o restante da família", conta Marco Antônio Loureiro, filho do Mané.

Para muitos, o Mané conquistou com seu carisma uma simpatia ímpar no Mercado Municipal. "Quando atendia clientes árabes da (rua) 25 de Março, ele falava o idioma deles", lembra Marco. "Ele é o veterano que deu a cara ao Mercadão e se tornou um membro da família de todos", afirma o amigo e permissionário Sérgio Gonçalves Pacheco.

De tão querido por seus clientes e amigos, a sua morte foi imediatamente divulgada e comentada por milhares de internautas através do Orkut, que hospeda uma comunidade exclusiva do Bar do Mané e outras do próprio Mercado Municipal.
Contemporâneo do Mané, o comerciante Júlio Alcino Rodrigues o define como "integrante de uma geração que representa tudo o que o Mercado tem de bom atualmente". "Ele trouxe o sanduíche de mortadela e o pastel de bacalhau para cá e outros saborosos lanches", recorda Rodrigues.

Com 70 anos de Mercado Municipal, o Mané viveu todos os bons e maus momentos do Mercadão. "Quando havia as enchentes do Tamanduateí nas décadas de 50 e 60, ele ficava em cima do balcão. Muitas vezes precisou ser socorrido pelos bombeiros", diz Marco, lembrando a importância da tradição histórica das famílias de comerciantes do Mercado da Cantareira: "A história que estou vivendo é a mesma pela qual meu pai passou com meu avô. Meu filho e meu sobrinho já estão trabalhando aqui também", compara.


Manoel Cardoso Loureiro nos primeiros anos do Bar do Mané no Mercado Municipal (ao lado de uma máquina italiana de café expresso da época)

REPERCUSSÃO NO MERCADO

"O Mané foi o responsável pelo renascimento do Mercadão, principalmente do setor de bares, uma novidade comentada no Brasil e até no exterior."
Antônio Quincas

"Ele inventou a tradição do Mercado Municipal com seu exemplo de trabalho e honestidade, fazendo sua história se confundir com a do próprio Mercado."
Wagner Borges

"O único dono de bar em que todos deveriam se espelhar. Sinceridade, honestidade, amizade e pioneirismo no sanduíche de mortadela. O Mané é eterno."
Roque Bruno Tadeu Peta (Roni)

"Era o melhor amigo do meu pai, deu sua vida ao Mercado e agora deixa saudades. Era muito bonita a relação entre pai e filho que ele conduzia em sua família, um exemplo."
Nancy Geraldi

"Uma perda irreparável. Pessoa honesta, correta, bom caráter e patrimônio perdido do Mercado: um exemplo a ser seguido pelos mais jovens."
João Levi Miguel

FOTOS (clique para ampliar)