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Especial
aniversário de São Paulo
O falar paulistano
José
Luiz Fiorin*
Colaborador

Nos
diferentes lugares do Brasil, fazem-se comentários sobre
aquilo que é chamado paulistanês, falar típico
da cidade de São Paulo. Vejamos alguns deles. Embora São
Paulo esteja muito longe do mar e, portanto, nela não transitem
navios, há faróis (= semáforos) em todas as
esquinas. Meu é a forma de se dirigir a alguém próximo,
que é denominado chegado. Rodízio há de vários
tipos, até de carros. Ué é equivalente ao uai,
usado pelos mineiros. Ôrra, meu! significa "caramba,
puxa vida". As calçadas têm guia e não
meio-fio. Os trabalhadores não recebem, no final do mês,
contracheque, mas holerite. As pessoas voltam às quatro da
matina (= madrugada) da balada (= programa noturno em bares, danceterias,
etc.). Imagina é uma resposta que se dá, quando alguém
diz Obrigado: significa, pois, "de nada". Não por
isso é sinônimo de imagina. Ponto é a parada
de ônibus. Rachar o bico é gargalhar. Trampar é
trabalhar; o substantivo correspondente é trampo. E as formas
de cumprimentar alguém? Firmeza, mano? E aê, mina?
Tó é uma forma reduzida do imperativo do verbo tomar,
usada para oferecer alguma coisa a alguém: tó esse
livro p'cê. E por aí vai.
Um fato inerente a todas as línguas do mundo é que
elas variam no espaço, no tempo, de um grupo social para
outro, de uma situação de comunicação
para outra. No Brasil, um carioca, por exemplo, não fala
como um gaúcho. Os jovens valem-se de uma fala diversa da
dos mais velhos. Existem os falares populares e a chamada norma
culta. Não se fala da mesma maneira com os amigos num bar
e com o presidente da República numa audiência formal.
A variação ocorre em todos os níveis da língua:
o da pronúncia, o da gramática, o do vocabulário.
No entanto, ela é mais percebida na pronúncia e no
vocabulário. O falar de uma região é chamado
dialeto.
Diante disso, cabe uma pergunta: existe um falar paulistano? Certamente
sim. Quais são suas particularidades? É preciso que
ele seja descrito de maneira mais fina, em contraste com outros
falares regionais. Podemos, porém, avançar algumas
observações sobre ele.
Existe uma região do Brasil (interior do estado de São
Paulo, norte do Paraná, sul de Minas, boa parte de Goiás,
Mato Grosso e Mato Grosso do Sul), que fala o chamado dialeto caipira,
palavra que em Lingüística não tem nenhuma conotação
pejorativa. Na pronúncia, esse falar caracteriza-se, entre
outras coisas, pelo r retroflexo (pronunciado com a elevação
do reverso da ponta da língua em direção ao
céu da boca), pela vocalização do lh (por exemplo:
muié) e pela transformação do l em r no final
de sílaba (por exemplo: carça). Na cidade de São
Paulo falava-se esse dialeto. No entanto, com a chegada de imigrantes
(italianos, espanhóis, alemães, japoneses, chineses,
coreanos, árabes, etc.) e migrantes de todas as partes do
país, especialmente nordestinos, esse falar começa
a diluir-se. A mistura de falares vai gerando um novo dialeto, com
sua melodia, sua pronúncia (por exemplo, não se usa
mais o r retroflexo) e seu vocabulário próprios. Nessa
mescla, cabe um papel central, pelo seu grande número, à
contribuição dos italianos. A confluência do
falar dos italianos com o dialeto caipira está na base da
constituição do que se chama o paulistanês,
uma oralidade própria dos habitantes de São Paulo.
Esse português italiano-acaipirado das ruas de São
Paulo foi magnificamente retratado por Adoniran Barbosa em seus
sambas.
*José
Luiz Fiorin é professor de Lingüística da USP

Adoniran
Barbosa
Um
samba no Bixiga
Adoniran Barbosa
Um
domingo nóis fumo num samba no Bixiga
Na rua Major, na casa do Nicola.
A mezza notte o'clock,
Saiu uma baita duma briga
Era só pizza que avuava junto com as brajola
Nóis era estranho no lugar
E não quisemo se meter.
Não fumo lá pra brigá, nóis fumo lá
pra comê
Na hora "H" se enfiemo debaixo da mesa
Fiquemo ali de beleza, vendo o Nicola brigá
Dalí a pouco escuitemo a patrulha chegá
E o sargento Oliveira falá
"Não tem importança
Vou chamar duas ambulança".
Carma pessoá,
a situação aqui tá muito cínica
Os mais pior vai pras Crínica.
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