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O
agronegócio é o negócio do Brasil
Por
Otávio Gutierrez*
Engenheiro agrônomo e especialista em agronegócio
SNACKS E CEREAIS MATINAIS

Nos
Estados Unidos, grande parte da produção de milho
é comida por gente. No Brasil de hoje, quase todo o milho
é comido por vaca, frango e porco.
Isso não foi sempre assim: no Brasil do começo do
século passado, o milho era muito consumido diretamente pelo
homem. Farinha de milho, fubá, canjica e quirera eram utilizados
em pratos muito saudáveis e muito baratos, feitos em casa,
no tempo em que a mão- de- obra doméstica era abundante
e o tempo consumido no preparo das refeições não
era problema.
Os americanos, campeões que são da agregação
de valor a produtos agrícolas, inventaram duas famílias
de produtos industrializados a partir do milho que são um
tremendo sucesso de mercado, perfeitamente adaptados à vida
moderna: os snacks, nome que poderíamos traduzir pela expressão
meio antiquada petiscos, bolados para serem consumidos desvairadamente
em frente à televisão e os cereais matinais, os quais,
como seu nome diz, foram pensados para dar substância ao café
da manhã, consumidos geralmente acompanhados de leite ou
iogurte. O Brasil já está aderindo a ambos e já
estamos assistindo a uma ferrenha disputa por espaço nesse
novo e imenso mercado, muito mais lucrativo que dar milho a bode.
CARNE
DE VACA

O
Brasil tem na carne de vaca um negócio muito grande. O rebanho
conta hoje com uma população de 160 milhões
de cabeças, quase igual à população
humana. Só a Índia tem um número maior, mas
como lá existem restrições culturais e religiosas
ao consumo de carne, o Brasil é considerado como tendo o
maior rebanho comercial do mundo.
Apesar disso, o papel da pecuária tem sido secundário
em nossa história econômica: a pecuária sempre
ocupou as terras mais fracas e, de modo geral, não utilizou
tecnologia intensiva. Nosso clima, entretanto, é tão
favorável à produção de capim, base
da alimentação bovina no Brasil, que, mesmo assim,
a criação de gado cresceu muito, fazendo com que esse
agronegócio seja aquele que ocupa o maior volume de terras
e propriedades.
Tudo indica que a exportação de carne poderá
vir a ser uma ótima oportunidade para o Brasil, porque nos
países do Primeiro Mundo está se considerando que
a carne produzida a pasto, num processo em que os animais andam
livres, numa vida natural, seja mais sadia que a carne de animais
criados presos, como se faz nos Estados Unidos e na Europa. Temos
que pensar em fazer o marketing de nossa carne com base nessa idéia.
LEITE

A compreensão
do conceito de cadeia de produção de agronegócios
tornou-se essencial para a tomada de decisões nesse setor.
O leite é um exemplo instrutivo.
O processo industrial dominante na produção de leite
era o da pasteurização, o que fazia do leite um produto
tipicamente perecível. Por isso, a produção
tinha que estar próxima das grandes cidades, com tendência
à exploração intensiva, onde as vacas ficam
em estábulos e a uniformidade na produção é
garantida pelo armazenamento de ração; o transporte
até o varejo exige refrigeração e a venda precisa
estar muito pulverizada, geralmente através de padarias próximas
da casa do consumidor, para compra diária.
Quando surge a tecnologia do longa vida, tudo vira de cabeça
para baixo: o leite deixa de ser um produto perecível, pode
ser armazenado, tanto na fábrica como em casa. A fazenda
pode estar mais longe, em terras baratas; vacas baratas andam pelo
pasto colhendo a própria ração, vivendo ao
ar livre e não em estábulos caros; a distribuição
fica mais barata, porque o número de pontos de venda, agora
os supermercados, é muito menor e a própria venda
barateia, porque é self-service. Toda a cadeia de produção
fica muito diferente do que era. Alguém vai ficar melhor
do que estava, mas alguém pode ficar pior.
AÇÚCAR

O
negócio do açúcar é importante, no Brasil,
desde a época do descobrimento. Em 1532, Martim Afonso de
Souza fundou um engenho em São Vicente e, pouco tempo depois,
já havia engenhos também em Pernambuco.
Com base nos engenhos do Nordeste, o Brasil Colônia tornou-se
o maior produtor mundial de açúcar. Fortunas imensas
surgiram dos canaviais. O negócio era tão bom que
atraiu a invasão holandesa, que dominou Pernambuco e o açúcar
durante trinta anos, até sua expulsão, em 1654.
O Brasil se manteve como principal produtor até 1800. Depois
disso, a concorrência do açúcar de beterraba,
que surgiu na Europa e do açúcar de Cuba levou o Nordeste
do fim do século XIX a uma situação de crise.
O mercado interno era pequeno e estava difícil exportar.
Hoje, cem anos depois, houve muita mudança nesse cenário.
O mercado interno cresceu, é muito maior que a exportação.
A produção principal já não está
no Nordeste, está no Centro-Sul, especialmente no estado
de São Paulo. O Brasil voltou a ser importante e detém
o primeiro lugar da produção mundial e o açúcar
hoje garante uma quantidade enorme de empregos em muitas regiões
do Brasil.
O
CAMPO E AS ARTES
A sociedade super urbanizada em que vivemos continua a sentir uma
ligação profunda com a roça, uma certa nostalgia
pela vida no campo.
Muitas manifestações artísticas importantes
têm como tema as relações dos homens com a agricultura,
como se vê na literatura de Jorge Amado, de Érico Veríssimo
e de Monteiro Lobato, no teatro de Jorge Andrade e nas telas de
Portinari.
Nas novelas de televisão, obras voltadas às grandes
audiências, são as histórias ligadas ao campo
que mais atraem o público, como prova o sucesso das novelas
Pantanal, O Rei do Gado e Terra Nostra. Na música popular,
expressão artística em que a emotividade aparece mais
facilmente, a nostalgia pela vida no campo se demonstra pelo sucesso
da música sertaneja nas grandes cidades.
Ao que tudo indica, a cabeça das pessoas coloca na cidade
as coisas ligadas ao trabalho, à luta do dia-a-dia e ao dinheiro
e coloca no campo as coisas ligadas ao ideal de liberdade, à
natureza, às emoções simples do amor pela vida.
Em resumo, as pessoas da cidade sentem que o coração
da Humanidade está na roça. Isso, naturalmente, abre
ótimas oportunidades para os agronegócios ligados
ao turismo e ao lazer.
*Otávio
Gutierrez é engenheiro agrônomo e produz programetes
para rádio e artigos para jornal sobre diversos assuntos
de temática agrícola e/ou do agronegócio.
agronegociodobrasil@uol.com.br
ou agronegociobrasil@uol.com.br
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