|

O
agronegócio é o negócio do Brasil
Por
Otávio Gutierrez*
Engenheiro agrônomo e especialista em agronegócio
SEDA

A seda
é um tecido finíssimo e de alto valor, que tem origem
no casulo do bicho da seda. Esse bicho é uma lagartinha que
come exclusivamente folhas de amoreira. As lagartinhas são
criadas em galpões rústicos, onde ficam sobre esteiras.
O criador colhe as folhas e as traz para oferecer como alimento
ao bichinho. O desenvolvimento da lagarta dura cerca de 30 dias;
depois disso ela tece um casulo em torno de si própria, para
servir de proteção durante a fase de crisálida,
em que fica imóvel e indefesa, sofrendo dramáticas
transformações que a farão tornar-se uma mariposa.
Esse casulo, que é feito de um único fio com cerca
de 1.200 metros de comprimento, é colhido pelo criador, que
o manda para a fiação e daí para as tecelagens
e estamparias e depois para as confecções, de onde
saem para as lojas camisas, gravatas, blusas e vestido de alto preço.
A China é o maior produtor e tem causado problemas, porque
coloca no mercado grandes quantidades de seda, em geral de má
qualidade, a preços muito baixos, derrubando os preços
da seda de ótima qualidade que o Brasil produz através
de 11 mil famílias de pequenos produtores do Paraná
e de São Paulo, que tiram seu sustento dessa atividade tão
trabalhosa, difícil e delicada.
RAÇÃO
PARA ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO

Quase
toda família tem, ou já teve em alguma época,
um animal de estimação. Um gatinho, um periquito,
um peixinho dourado, um cachorrinho ou um cachorrão. Alimentar
um periquito ou um peixinho dourado nunca foi problema, mas os mais
velhos certamente se lembram da tremenda encrenca que era alimentar,
por exemplo, um cachorro boxer. Era preciso ir buscar ossos no açougue,
comprar carne barata e cozinhar um tempão junto com fubá
de milho. Sem o tutano do osso e a carne, o cachorro enjeitava a
polenta. Isso tinha que ser feito todos os dias. E quando se precisava
viajar, como ter coragem para pedir a uma vizinha para assumir essa
encrenca?
Essa trabalheira toda acabou: hoje os animais de estimação
são alimentados de maneira muito fácil, com rações
balanceadas tecnicamente e prontas para servir. O negócio
de rações para animais de estimação,
que continua a ter como base produtos agrícolas de origem
animal e também o milho e a soja, cresceu muito e hoje em
toda parte há uma loja de ração e até
de banho e de tosa. Dá até para ter cachorrinhos e
cachorrões em apartamentos e não é preciso
ter muita coragem para pedir ao vizinho que dê ao bichinho
um prato de ração por dia, quando viajamos.
Um bicho de estimação faz companhia e alegra a alma
e também dá renda e trabalho a muita gente no campo
e na cidade.
PIPOCA NO CINEMA
Um dos segredos mais bem guardados no negócio do cinema é
a margem de lucro garantida pela venda de pipoca. Aqui no Brasil
não tínhamos o hábito de comer pipoca no cinema,
preferíamos as balas, mas empresas internacionais que vieram
para cá introduziram o conceito do multiplex, um cinema com
várias salas de exibição, e também a
pipoca.
Há quem diga que pipoca no cinema é o negócio
que tem a melhor margem de lucro no mundo. O milho pipoca é
comprado por peso e vendido por volume e a taxa de expansão
de um bom milho pipoca é de um para 50, um litro de milho
pipoca cru dá 50 litros de pipoca estourada.
A abundância dos pacotes de pipoca que são vendidos
no cinema e o desconhecimento do preço da matéria-prima
fazem com que nos sintamos muito contentes ao sentar na cadeira
com um pacotão de pipoca que contém quase 98% de vento.
É claro que existem custos, como o sal, a manteiga, a embalagem,
a amortização da pipoqueira, o aluguel do ponto e
o salário da funcionária, mas alguns analistas estimam
o lucro da pipoca no cinema em 75% do preço de venda.
O milho pipoca que consumimos em casa e que compõe boa parte
do lucro dos cinemas tem sua principal zona produtora no sul do
estado de Goiás, em torno da cidade de Itumbiara.
PÁSSAROS
CANOROS

Passarinhos
que cantam sempre atraíram muito os brasileiros e há
não muito tempo, quando ainda não vivíamos
empilhados em prédios de apartamentos e as casas ainda tinham
quintais, era rara uma varanda que não tivesse uma gaiola
com um sabiá, um canarinho da terra, um curió, um
pássaro preto ou um singelo coleirinha.
Nessa época, todo mundo achava que a natureza podia produzir
esses bichinhos infinitamente. A captura era feita sem qualquer
preocupação ou controle, e isso foi levando ao risco
de desaparecimento esses maravilhosos passarinhos cantores. Com
o desenvolvimento do espírito de preservação
ambiental, surgiram leis de proteção aos animais e
atualmente é crime criar, comprar e vender pássaros
nativos e até mesmo realizar torneios de canto e exposições
sem permissão do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente).
Mas os 250 mil passarinheiros que, segundo as associações
de criadores, existem no Brasil não precisam desistir de
seus passarinhos. O Ibama está cadastrando todos os criadores
e flexibilizando a legislação para quem pretende manter
pássaros sem prejudicar a natureza, adquirindo-os de comerciantes
ou de criadores autorizados. Como sempre a criação
racional será a melhor maneira de combater a brutalidade
da caça predatória. E é muito melhor ouvir
o canarinho cantar sem ter nenhum peso na consciência.
LIÇÃO
DE CASA

É
muito comum ouvirmos analistas que tratam de questões importantes
para o desenvolvimento econômico e social utilizarem a expressão
"o Brasil precisa fazer sua lição de casa".
Se assim é, a sociedade brasileira precisa saber que sua
agricultura já fez, e continua a fazer, sua lição
de casa. No segmento da produção vegetal, em todos
os principais produtos nós já temos produtividade
e custos imbatíveis em termos mundiais: nenhum outro país
do mundo consegue concorrer conosco, em termos leais, em soja, em
suco de laranja, em açúcar, em álcool, em algodão
e em café e temos feito enormes avanços também
na produtividade e custos de milho e trigo. Isso também é
verdade para o segmento da produção animal: temos
os menores custos do mundo na produção das principais
carnes, a de vaca, a de frango e a de porco e ainda na produção
de leite e de ovos.
Todo esse avanço se deu durante o processo quase sempre brutal
pelo qual se está implantando a nova ordem econômica
mundial, baseada na globalização dos mercados e na
competição, e as conseqüências perversas
desse processo atingiram de modo violentíssimo os agricultores
deste nosso Brasil Terceiro Mundo: muitos agricultores perderam
tudo, até seus sítios ou fazendas e outros continuam
heroicamente a produzir, premidos por imensas dívidas que
foram obrigados a assumir para fazer frente à nova realidade
mundial.
*Otávio
Gutierrez é engenheiro agrônomo e produz programetes
para rádio e artigos para jornal sobre diversos assuntos
de temática agrícola e/ou do agronegócio.
agronegociodobrasil@uol.com.br
ou agronegociobrasil@uol.com.br
|