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Jardins
aromáticos II
Por
Raul Cânovas*
Colaborador

Raul Cânovas
Para
ter um jardim que nos delicie com seus perfumes e sabores, é
importante que esteja localizado em um lugar ensolarado, de preferência
num canto para que os ventos não dispersem os aromas que
estas ervas exalam e como elas são usadas diariamente, o
ideal é que estes canteiros estejam o mais perto da cozinha
para poder inclusive facilitar a tarefa do cozinheiro que não
vai se dar ao trabalho de atravessar um longo percurso para colher
um tempero, abandonando as panelas no fogo; por outro lado, projetando
um jardim aromático vamos dar um pouco de charme a esse pedaço
de terreno que, habitualmente por ser uma área de serviço,
é relegada a um segundo plano e condenada eternamente a ser
um lugar escondido de todo o mundo.
Hoje é muito fácil comprar as mudinhas e formar alguns
canteiros, ter uma coleção grande de temperos, para
sempre ter maiores possibilidades de dar uma identidade aos pratos
que a gente prepara; uma muda de alecrim é indispensável
porque iremos usar as folhas para temperar o feijão, as carnes,
e até para a água que vai servir no cozimento de alguns
legumes; também é interessante para aromatizar o vinagre;
tudo isto quando se fala de culinária. Em termos medicinais
e cosméticos é um antidepressivo. Em pó cicatriza
feridas; em forma de chá é recomendado para o fígado
e estômago e como tônico capilar tem a particularidade
de escurecer os cabelos e evitar a queda... "Não é
uma maravilha?"

Alecrin
Como
é originário do Mediterrâneo, onde cresce entre
as rochas sempre nos lugares mais altos e secos, não é
exigente em termos de solo; sempre se deve utilizar terra arenosa
e expô-la a pleno sol, não precisa de nenhum adubo
especial, mas é bom corrigir o pH do solo que normalmente
aqui em São Paulo é bastante ácido. O alecrim,
ou rosmarino como é conhecido na Itália, gosta de
terra alcalina e você pode cultivá-lo em vasos ou até
criar cercas com até um metro de altura.
Antigamente, nos jardins ingleses do século 18, era muito
comum este tipo de sebes e até era bastante folclórico
o costume de respirar a fragrância desta planta para se manter
sempre jovem. Ah, outro detalhe interessante é que o alecrim
afugenta as moscas.
É bom deixar claro que quando destinamos uma área
pequena para o cultivo de temperos não estamos apenas cuidando
da matéria-prima do nosso cardápio. O prazer de andar
pela horta logo cedo pela manhã, quem sabe para colher morangos
úmidos de orvalho, é realmente uma coisa super gostosa;
o próprio cheiro da terra molhada de chuva é o melhor,
segundo falava um botânico inglês do século 17,
que se chamava William Coles, para despertar o apetite.
Antigamente, muitas das ervas que hoje são usadas cotidianamente
na cozinha eram utilizadas com outros fins, um dos usos correntes
na Antigüidade e na Idade Média era a de dissimular
os cheiros ruins que pela ausência de esgotos e pelo lixo,
faziam parte do dia-a-dia. No caso da sálvia, da lavanda
e do alecrim as propriedades anti-sépticas ajudavam também
a afugentar pulgas e piolhos nas residências onde se queimavam
as folhas secas da sálvia, inclusive, esta erva também
era usada naquela época para banhos oculares.
Mas a salvia officinalis é um pequeno arbusto de grande valor
na cozinha, com seu aroma intenso e seu sabor um tanto picante,
realçam as carnes de porco, os peixes assados, o pato, as
massas e até o recheio das omeletes. No início da
primavera é bom podá-la e em dezembro também.
Graças ao seu enorme poder terapêutico, ganhou o nome
de sálvia que vem de salvus, que quer dizer salvar; uma de
suas virtudes, por exemplo, é que é ideal para ajudar
na digestão, um chá de sálvia geralmente é
bem mais saudável que um café; outro truque é
mastigar umas folhinhas antes de se lançar num jantar de
comidas pesadas ou de uma feijoada; inclusive quando se tempera
a carne de porco com esta erva, é exatamente para minimizar
o processo digestivo.

Sálvia
Também
pode ser usada no preparo de vinagre. No verão colha um punhado
de folhas e depois de lavá-las enxugue-as bem, este passo
é muito importante para não estragar o vinagre, depois
coloque dentro da garrafa de vinagre branco os galhinhos inteiros
ou as folhas picadinhas e tampe hermeticamente o vasilhame, depois
de umas três ou quatro semanas o vinagre terá sido
tomado por um buquê muito especial.
Uma outra receita que aprendi na época em que tentei ser
naturalista, é o pó dentifrício, que você
pode preparar da seguinte maneira: seque folhas de sálvia
e sal grosso no forno brando, quando estas se tornarem quebradiças
moa-as até formar um pó fino e uniforme que possa
ser peneirado, através de um coador de chá. Pronto,
o ideal é usá-lo com uma escova de dente macia de
cerdas naturais, a italiana da marca Zeta é um das melhores
e junto com o preparado de sálvia seus dentes vão
ficar prontos para um sorriso fotográfico. Como vocês
podem ver esta é uma erva de múltiplas utilidades,
que cresce a pleno sol numa terra solta e sem muito adubo para que
sua fragrância seja bem acentuada.
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Paisagista, projeta jardins há mais de quarenta anos, leciona
na Fundação Maria Luisa e Oscar Americano e na Escola
Paulista de Paisagismo. Ministra palestras e tem dois livros publicados.
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