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As árvores frutíferas

Por Raul Cânovas*
Colaborador

Vamos falar de uma verdadeira raridade, uma árvore frutífera muito conhecida no norte e nordeste, porém rara e difícil de ser encontrada nos estados do Sul.

O Sapoti ou Achras Sapota, como é classificada botanicamente, é natural das Antilhas, que são aquelas ilhas paradisíacas que ficam perto da costa venezuelana, hoje bastante conhecidas por causa de Curaçao e de Aruba; talvez seja por isso que é tão popular a ponto de ser traduzida para vários idiomas, em francês é sapotier; em inglês Sapodille-tree; em espanhol Zapote, em italiano Zapotilla. O turismo intenso dessa região tornou o sapoti bastante difundido em outros países e a partir do descobrimento da América foi levada para outros continentes, como África e Ásia. Na América Central, continua sendo cultivada especialmente na Guatemala, Honduras até o sul do México.


Árvore sapoti - Achras sapota

Com certeza a maior importância do sapotizeiro reside no fato de fornecer a matéria-prima para a fabricação do chiclete, a famosa goma de mascar tem por base a seiva do sapoti; fazendo um corte no tronco sai um líquido pegajoso e leitoso, que é exportado por esses países para confeccionar o 'chewing-gum' como é conhecido nos Estados Unidos.

A árvore tem uma folhagem densa, os galhos ramosos saem quase que horizontalmente do tronco principal e soltam de suas axilas os frutos, que são doces quando maduros, a pele do fruto é marrom-clara e dentro contém uma dúzia de sementes pretas que se separam da polpa com facilidade.

No estado de São Paulo foram feitas tentativas de cultivo em Taubaté, Campinas, Limeira, mas realmente o sabor é menos acentuado que no Norte do país; por isso recomendo que seja plantada em regiões quentes, no litoral, e exposta ao sol intenso da tarde.

Em termos econômicos seria interessante o cultivo já que a fruta é bem resistente ao transporte, nos Estados Unidos, só para dar um exemplo, é cultivada na Flórida onde faz bastante calor; é enviada em caixas para Nova Iorque, aonde chegam em ótimas condições de conservação, sem necessidade de refrigeração. Esta fruta que dependendo da variedade pode ter uma forma esférica ou oblonga, alongada, contém vitaminas A, B1, B2, B5 e também vitamina C, além de calorias, cálcio, fósforo e ferro. As sementes trituradas e cozinhadas são diuréticas e, portanto muito indicadas em casos de pedras na bexiga.


Fruta-do-conde - Annona squamosa

No paisagismo é interessante, não só pela sombra da copa que pode atingir até 15 metros de altura, mas também pela florada creme que é muito prolongada. Por tudo isto vale a pena seu plantio nos jardins onde o inverno não é tão intenso. Existe uma outra árvore que dá um fruto tão saboroso, tão distinto que foi batizado de "fruta do conde"; aliás, a história verdadeira remonta ao ano de 1826 quando o Conde de Miranda (que era governador da Bahia) a importou das Antilhas e começou a plantá-la nesse estado.

Aqui no Brasil, existem algumas plantas que fornecem frutos bastante parecidos com esta que fora importada na primeira metade do século passado, e todas pertencem à família botânica conhecida como anonáceas; a graviola, o araticum-do-cerrado com frutos enormes que às vezes chegam a pesar dois quilos e com uma polpa meio enjoativa de tão doce, muito consumida no interior de Minas Gerais; uma outra bastante popular na região amazônica é a Anona Montana e tem também a fruta-da-condessa que é uma árvore um pouco mais alta, chegando até uns sete metros de altura, enquanto que a fruta-do-conde, que é também conhecida como ata ou pinha, não passa de três metros.

A fruta tem realmente um gosto tão delicado, tão especial que apesar da dificuldade de armazenamento e transporte, o que a torna cara, é muito apreciada nos Estados Unidos onde é conhecida como Sugar-apple ou em outros países latino-americanos onde é comercializada com o nome de Chirimoya. Em termos paisagísticos pode ser usada em pequenos espaços e até em canteiros ou vasos, já que é de pequeno porte; no que diz respeito ao clima, a fruta-do-conde ou pinha prefere calor, por isso se deu muito bem na baixada fluminense; aqui no estado de São Paulo demorou em se adaptar devido a uma doença conhecida como cancro-das-axilas, mas parece que nos últimos anos, graças às melhoras genéticas, este problema foi controlado e São Paulo já produz fruteiras de ótima qualidade.

Se vocês querem experimentar o paladar especial desta iguaria, janeiro é um mês ideal; embora nos climas quentes ela frutifique praticamente o ano todo, sempre é mais fecunda no início do ano. Em Aruba, Curaçao, na Ilha Margarita, ou seja, em toda essa região das Antilhas, inclusive Barbados onde é conhecida como Custard-apple (creme de maçã) eles fazem um suco fermentado do fruto maduro, que chamam de vinho de Corosol, realmente muito gostoso, mas a fruta ao natural é melhor, além de saborosa, é rica em hidratos de carbono, portanto recomendada em casos de anemia e fraqueza; é bom destacar que esta fruta era consumida muito antes do descobrimento da América, em toda essa região até os territórios do Império Inca, no Peru.


Graviola - Annona muricata

Na hora de comprar as mudas prestem atenção e prefiram mudas enxertadas sobre araticum ou condessa, já formadas, e plantem o pé em um solo fértil não exposto aos ventos dominantes. A fruta do conde não precisa de tratos nem de podas, apenas umas pulverizações de calda bordalesa de vez em quando. De resto é só deixá-la esfriar um par de horas na geladeira (não muito tempo para não perder o sabor) e levá-la para a mesa para saboreá-la depois do almoço ou jantar.

* Paisagista, projeta jardins há mais de quarenta anos, leciona na Fundação Maria Luisa e Oscar Americano e na Escola Paulista de Paisagismo. Ministra palestras e tem dois livros publicados.