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O
agronegócio é o negócio do Brasil
Por
Otávio Gutierrez*
Engenheiro agrônomo e especialista em agronegócio
ESPECIARIAS DA ÍNDIA

Há
500 anos, caravanas de cavalos e camelos atravessavam montanhas,
florestas e desertos, levando produtos da Ásia tropical até
a Europa de clima frio. Coisas diferentes, impossíveis de
produzir na Europa. Essas viagens duravam anos e os riscos eram
imensos, o que fazia com que os produtos da Ásia chegassem
à Europa por preços astronômicos, tão
altos que encorajaram os portugueses a desafiar o Oceano Atlântico,
contornando a África em suas caravelas para chegar por mar
à Índia, à China, ao Japão, a todo o
Extremo-Oriente.
Atrás dos portugueses foram os espanhóis, os franceses,
os holandeses e os ingleses, todos se lançando ao mar em
busca de negócios, numa imensa aventura cujo maior resultado
foi a incorporação da América ao mundo civilizado.
Os cobiçados produtos da Ásia, então mais conhecidos
como as especiarias da Índia, eram, basicamente, produtos
agrícolas: açúcar, pimenta-do-reino, noz moscada,
canela, gengibre, cravo.
Hoje, a importância relativa das especiarias diminuiu, mas
é sempre interessante lembrar que a busca desses produtos
desencadeou a internacionalização da economia, iniciando
um processo que hoje chega a seu auge com o nome de globalização.
PRODUTOS
DA ABELHA

No
passado, ainda nos tempos bíblicos, o mel era muito procurado
pelo homem porque proporcionava uma delícia muito especial,
única substância doce então existente. Hoje,
muitos produtos apícolas são explorados na indústria
de alimentos e em cosmética: mel, pólen, própolis
e geléia real são consumidos puros ou adicionados
a bolos, confeitos, achocolatados, iogurtes, balas, alimentos enriquecidos
e dietéticos e também entram na composição
de cremes, loções e xampus. As correntes da medicina
alternativa também utilizam como medicamentos o pólen,
a própolis, a geléia real, a cera e o veneno das abelhas.
Graças ao trabalho de pesquisadores brasileiros que desenvolveram
a técnica da seleção de abelhas africanas mansas,
o Brasil é hoje o único país do mundo que tem
sua produção baseada em abelhas africanizadas. Como
essas abelhas são muito produtivas e resistentes a doenças
que atacam e dizimam as abelhas da raça européia,
surge aqui uma ótima oportunidade que o Brasil já
está aproveitando e são excelentes as perspectivas
de negócios internacionais nos próximos anos.
PALMITO
A
língua inglesa dá ao palmito um nome poético
e esclarecedor: "Heart of Palm", Coração
da Palmeira. O palmito é o coração, o miolinho
da ponta do tronco da palmeira no lugar em que ele está em
crescimento e é tenro e macio. Hoje, no Brasil, tira-se palmito
principalmente de três palmeiras: a Juçara, o Açaí
e a Pupunha.
A Juçara, que dá o melhor de todos os palmitos, é
originária da Mata Atlântica. Essa palmeira não
rebrota quando cortada e por isso está em risco de extinção;
o palmito de Juçara que se encontra para comprar é,
em geral, roubado por invasores de reservas da Mata Atlântica.
O Açaí é uma palmeira da Amazônia, ainda
muito abundante, de modo que há muitas fábricas que
produzem a partir dela. O Açaí rebrota na base, quando
cortado e, por isso, não se perde a planta. Não há,
entretanto, plantações e a colheita é feita
por extração na floresta amazônica.
A Pupunha é uma palmeira da América Central que está
sendo cultivada para extração de palmito porque tem
crescimento muito rápido e produz brotos laterais que substituem
a planta-mãe. Dá um palmito muito bom e seu cultivo
vai diminuir a extração de Juçara e de Açaí,
permitindo a sobrevivência dessas espécies, que, um
dia, serão também cultivadas.
CARNE
DE PORCO

A
carne de porco é a carne mais consumida no mundo mas, no
Brasil, seu consumo é pequeno, em razão de preconceitos
que têm raízes no passado: nossos antepassados criavam
os porcos soltos nos quintais, aproveitando os restos da alimentação
humana e, como essa situação não era muito
higiênica, os porcos ficaram com a fama e o conceito de animais
impuros. Esse conceito hoje está superado. A suinocultura
moderna é feita em granjas bem planejadas, corretamente higienizadas
e a alimentação é feita com ração
e não com restos de comida, produzindo animais muito limpos,
tão limpos quanto as aves e as vacas. Basta comprar em açougues
e supermercados fiscalizados para ter certeza da qualidade sanitária
da carne de porco.
Outra razão para preconceito está na gordura: antigamente,
a principal função do porco era produzir banha, hoje
contra-indicada pela medicina. Também isso mudou, as raças
modernas produzem carne magra, que não difere, para a saúde
humana, da carne de outros animais.
Muitos especialistas em agronegócio vêem na produção
de suínos uma ótima oportunidade: o Brasil, grande
produtor de milho e soja para ração, deverá
produzir e exportar carne suína de ótima qualidade
e baixo custo para consumidores do mundo inteiro.
CAFÉ

Os
principais concorrentes do Brasil, a América Central e a
Colômbia, produzem um café diferente do nosso: o deles
é chamado "lavado" ou "suave" e o nosso
é chamado "café de terreiro". O fruto do
café, enquanto está na árvore, é o mesmo:
a diferença vem depois da colheita, no sistema de preparo.
No método colombiano, os frutos, depois de colhidos, são
colocados durante vários dias num tanque com água
corrente; isso faz soltar a casca e a polpa, que são arrastadas
pela água, restando a semente, que é, então,
seca ao sol, dando o café comercial denominado "lavado"
ou "suave". No método brasileiro, o fruto, depois
de colhido, é colocado inteiro para secar ao sol, ficando
por dez dias no terreiro; com isso, substâncias aromáticas
e açúcares que estão na polpa passam para a
semente, ao invés de se perderem na água de lavagem;
depois de seco, o fruto do café é descascado, resultando
no café denominado "de terreiro", que muitos gourmets,
em todo o mundo, reconhecem como melhor que o lavado, especialmente
quando a finalidade é o café expresso.
Para competir na área de cafés finos, com preços
diferenciados, o Brasil terá que mostrar ao mundo, através
de maciças campanhas de publicidade, as qualidades superiores
de seu café de terreiro.
*Otávio
Gutierrez é engenheiro agrônomo e produz programetes
para rádio e artigos para jornal sobre diversos assuntos
de temática agrícola e/ou do agronegócio.
agronegociodobrasil@uol.com.br
ou agronegociobrasil@uol.com.br
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