::Chefs em destaque
::Mercados da cidade
::Outros destaques
::Cultura e lazer
::Comer, beber e viajar
::Colunas
::Fale conosco
::Expediente
.


O agronegócio é o negócio do Brasil

Por Otávio Gutierrez*
Engenheiro agrônomo e especialista em agronegócio


PRESSÃO SOBRE AS MATAS


A Humanidade finalmente acordou para a importância das matas na manutenção da vida sobre o nosso planeta. No entanto, pouca coisa acontece no sentido da real preservação, porque um erro de análise faz com que toda a política de preservação esteja baseada na fiscalização, no policiamento, impossível de funcionar bem num país imenso como o Brasil.

A pressão agrícola sobre a mata deve ser aliviada pelo aumento da produtividade das áreas já tradicionalmente cultivadas.

Hoje os desmatadores são, em geral, pequenos produtores, fonte permanente de pressão sobre a mata, já que a agricultura de subsistência é, na Amazônia, obrigada ao nomadismo pela baixa fertilidade natural dos solos. Contra a pressão irracional por novas terras é necessário, portanto, política agrícola racional para as áreas já ocupadas.

Contra a pressão pela exploração irracional da madeira nativa, é preciso apoiar o agronegócio da madeira plantada. O bom negócio da exploração de uma mata plantada, ao lado de boas estradas, próxima do mercado, irá tornar inviável o desmatamento predatório. Ao invés de apenas proibir a predação, a solução está em apoiar a fertilidade da produção.

PESCADO

As águas mais próximas do litoral brasileiro não são ricas em peixes. Por isso, se quiséssemos obter grandes volumes de pescado, teríamos que investir muito capital em frotas modernas para ir pescar nas águas frias das proximidades da Antártida, o que não parece viável no momento.

A produção de peixes de água doce em granjas de criação, em compensação, tem um enorme potencial no Brasil e já apresenta, na verdade, um crescimento explosivo. Essa fase inicial da piscicultura, que é o nome técnico da criação de peixes, contou com a sorte de haver surgido uma nova forma de lazer em torno das cidades - os pesque-pague. O sucesso dos pesque-pague foi tão grande que hoje há centenas de granjas de piscicultura produzindo peixes para abastecê-los. Com isso, os criadores conseguiram um bom cliente para o começo de seus negócios, que é sempre uma fase difícil.

Agora, já temos bons técnicos na área e também bons criadores, de modo que a nova fase, de criação para o mercado varejista, poderá instalar-se sem grandes transtornos, abrindo ótimas oportunidades de negócios, já que a carne de peixe é muito saudável e deverá rapidamente cair no gosto de um número cada vez maior de consumidores.

MANDIOCA
A mandioca é uma planta nativa do Brasil, perfeitamente adaptada ao clima da maior parte do nosso território e, por isso, era muito importante como alimento dos índios, já muito antes da chegada de Pedro Álvares Cabral.

Durante o período colonial a farinha de mandioca era a base da alimentação da população mais pobre, especialmente dos escravos. Ainda hoje essa farinha é importante componente da alimentação dos habitantes do Norte e do Nordeste do Brasil.

A farinha de mandioca, entretanto, é um alimento de qualidade relativamente baixa, do ponto de vista nutricional e isso faz com que sempre que a população consumidora de farinha tenha sua renda aumentada ela imediatamente diminua seu consumo, que é trocado pelo de outros alimentos melhor reputados, como, por exemplo, arroz, feijão e carne.

O aumento da renda dos brasileiros fará acontecer grandes mudanças na cadeia de produção baseada na mandioca: a importância da indústria farinheira deverá diminuir muito e por outro lado, produtos como amido para indústria de alimentos como chips e salgadinhos, goma para a indústria têxtil, polvilho para biscoitos e para pães de queijo, mandioca palito pré-cozida e congelada e farofa pronta estão tendo e deverão continuar a ter um crescimento muito grande em sua demanda.

ERVA-MATE

A erva-mate é uma planta originária do Brasil e ocorre de forma natural em Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, em pequenas áreas de São Paulo e também no Paraguai. Os índios já consumiam mate no sul da América do Sul muito antes da chegada dos portugueses e espanhóis, nos anos 1500 e havia um fluxo comercial entre a região produtora, no Brasil e no Paraguai e as regiões consumidoras, no extremo sul do Brasil, no Uruguai e na Argentina.

Quando os padres jesuítas estabeleceram missões nessas regiões tentaram, inicialmente, proibir o uso da erva, por acreditarem ser excessivamente estimulante e também excessivamente diurética - os índios que haviam consumido grandes quantidades de mate costumavam sair da missa no meio e ir lá para fora, onde desaguavam com ruído, para constrangimento dos sacerdotes.

Percebendo, depois, que o mate não fazia mal e, ao contrário, seu uso facilitava a socialização e o convívio amistoso, os padres passaram a apoiar seu consumo e chegaram a importar sementes para plantar na região consumidora.

A erva-mate tornou-se um negócio de grande porte e o Brasil exportava grandes volumes para Uruguai e Argentina, até que políticas equivocadas de protecionismo tomadas pelo governo brasileiro viabilizaram o plantio na Argentina. Com isso, o mercado para o mate brasileiro, sempre colhido de forma extrativa nos bosques naturais, foi diminuindo e hoje já estamos importando da Argentina.

Com a atual dispersão de agricultores gaúchos e paranaenses pelo Centro e pelo Norte do Brasil, o consumo da erva mate está se disseminando, de modo que o convívio e a prosa em torno de uma cuia e de uma garrafa térmica com água fervente vão se tornando um prazer também para outros brasileiros.

ANIMAIS SILVESTRES

Faz muito tempo que a Humanidade vem domesticando animais para atender suas necessidades de abastecimento de carne, leite, de lã, de couros e peles, de ovos e ainda de transporte e montaria. Para isso, os homens foram escolhendo fêmeas e machos que apresentavam qualidade superior e fizeram cruzamento entre eles, obtendo filhos melhores que seus pais e mães. Esse processo, repetido por milhares de anos, acabou resultando nos atuais animais ditos domésticos, como as vacas, os cavalos, os porcos, as galinhas, os cabritos e carneiros, alguns tipos de peixes, e muitos outros.

Restaram na sua forma natural muitos animais, de difícil domesticação ou de baixo rendimento, mas que também atraem os homens por seu sabor especial ou por satisfazer o instinto de caçador que ainda subsiste no ser humano: são os animais selvagens ou silvestres, muitos dos quais hoje estão ameaçados de extinção pela caça predatória.

O risco de extinção dessas espécies está sendo resolvido pela criação desses animais em fazendas ou em reservas de caça que produzem uma parte dos animais para o consumo e devolvem outra parte para a natureza.

Já existem no Brasil muitas criações de capivaras, de pacas, de cotias, de catetos, de emas, de jacarés, de pássaros silvestres e até de cobras pra extração do seu veneno para fins medicinais. Mais uma vez, a produção inteligente vai substituir a burrice que é a predação.

*Otávio Gutierrez é engenheiro agrônomo e produz programetes para rádio e artigos para jornal sobre diversos assuntos de temática agrícola e/ou do agronegócio.
agronegociodobrasil@uol.com.br ou agronegociobrasil@uol.com.br