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A
cozinha contemporânea brasileira de ALEX ATALA
Premiado
diversas vezes pelas revistas Veja e Gula como melhor chef
do Brasil, o restaurateur Alex Atala não pára
de criar pratos requintados com ingredientes típicos
do país. Na sua conceituada casa da rua Barão
de Capanema, no bairro de Cerqueira César, o chef expressa
toda sua criatividade fazendo o que ele chama de "gastronomia
brasileira".
Paulo
F.

Um
dos mais prestigiados chefs brasileiros da atualidade, Alex
Atala, 38 anos, valoriza em sua cozinha o uso de ingredientes
típicos do país. No fim da década de
80, Atala era DJ na cidade. Depois partiu para a Europa, onde
decidiu estudar gastronomia.
De volta ao país em 1994, o chef passou por vários
restaurantes da capital, até abrir sua própria
casa em 99, o D.O.M (sigla em latim que significa Deus Ótimo
e Máximo).
A máxima beneditina, segundo Atala, também se
relaciona à gastronomia, já que na Idade Média
os mosteiros eram abertos aos viajantes. "Os monges gostavam
muito da boa mesa. Por isso os mosteiros ficaram reconhecidos
como bons lugares para comer e assim eles celebrizaram receitas,
licores e, principalmente, vinhos", explica. "Ovos
beneditinos são um clássico no café da
manhã até hoje no mudo todo", completa.

Para o chef Alex Atala, todas as culturas estão muito
bem expressadas no Mercado Municipal da Cantareira
Em
entrevista ao Mercado Paulista, Atala, que ainda comanda o
programa Mesa Pra Dois (canal a cabo GNT) ao lado da chef
carioca Flávia Quaresma, avaliou a importância
do Mercado Municipal Paulistano para a gastronomia e falou
sobre sua cozinha. A seguir, trechos da entrevista:
Mercado
Paulista - Na sua avaliação de renomado
chef, qual a importância do Mercadão para São
Paulo?
Alex Atala - O Mercadão é âncora
do mosaico gastronômico da cidade. Todas as culturas
estão muito bem expressadas nesse local. São
Paulo tem restaurantes de altíssimo nível italiano,
francês, português, chinês, japonês...
Temos um mundo gastronômico bem resumido e esse mosaico
se compõe de uma forma bastante clara no Mercado da
Cantareira, onde não há somente produtos, mas
também etnias, já que vemos por lá a
"banquinha" do japonês, a do português,
a do espanhol... Na minha cabeça, o Mercadão
não só reflete o aspecto culinário, mas
também o cultural dessa Torre de Babel que é
São Paulo.
MP
- E o que você aproveita do nosso Mercado para sua cozinha
contemporânea?
Atala - Eu tenho um foco muito grande em produtos brasileiros,
principalmente ingredientes frescos. Então, é
natural que eu recorra ao Mercadão. De 70% a 80% dos
produtos utilizados no preparo dos pratos do D.O.M são
comprados lá, desde azeites, bacalhau, secos até
frutas, verduras e ervas. Os peixes do Mercadão também
são um grande atrativo para um chef.
MP
- Você vai pessoalmente ao Mercadão?
Atala - Durante muitos anos fui pessoalmente ao Mercado.
Nos últimos anos eu tenho ido menos, porque você
acaba construindo uma relação de muita confiança
com seu fornecedor. Eles (os comerciantes) me conhecem há
tempos e sabem qual o padrão de qualidade que a gente
impõe. Eu comprava no Mercadão desde antes de
abrir o D.O.M e já faz seis anos que a casa está
aberta, estamos indo para o sétimo ano. O Mercado Central
também é um indicativo de sazonalidade. Uma
visita ao Mercado dá uma "refrescada" em
relação a preço de mercadorias.
MP
- Tem algum ingrediente que falta no Mercado Central?
Atala - Eu gostaria de ver o Mercado com mais frutas
brasileiras. Não estou apontando um defeito do Mercadão,
pois a gente sabe que esses produtos são encontrados
lá, mas sempre se vê mais morango, maçã
e outras frutas que não são da nossa cultura.
Poucas bancas têm graviola, cupuaçu e outras
nativas do Brasil. Quando digo que não estou apontando
defeito é porque o Mercado também funciona de
acordo com a demanda.
MP
- O que mais caracteriza sua cozinha?
Atala - Eu tenho uma cozinha que chamo de gastronomia
brasileira, onde são aproveitadas as bases clássicas
européias. No final dos anos 70 e início dos
80 vieram chefs franceses para o Brasil, profissionais oriundos
de grandes casas e de altíssimo gabarito. Como não
havia muitos produtos importados naquela época, esses
chefs tiveram que recorrer ao Mercado, buscar ingredientes
de boa qualidade e adaptar seus conhecimentos. Mas, com muita
técnica e primor, eles faziam uma cozinha essencialmente
francesa. No D.O.M aproveitamos essa mesma técnica,
e, com ingredientes brasileiros, criamos um universo de sabor
nacional.
MP
- Cite exemplos.
Atala - Foie gras com mandioquinha, fettuccine à
carbonara e muitos outros. A massa do fettuccine não
é feita de trigo, mas sim de palmito pupunha. O molho
é igual ao italiano e o aspecto é semelhante
ao macarrão. A segunda marca do D.O.M é a criatividade.
É uma cozinha onde criamos receitas. Aproveitamos muito
as influências francesa, italiana, espanhola e asiática,
mas o que prevalece é o contexto brasileiro.
MP
- Quais pratos chamam mais a atenção do público
que vem ao D.O.M?
Atala - Esses dois pratos que acabei de citar são
os "medalhões" do restaurante. A gente vende
muito peixe, independentemente da estação. As
vendas de peixe são bastante superiores às da
carne. Se eu puder traçar um perfil dos nossos clientes,
de 40% a 50% consomem peixe; outros de 20% a 30% preferem
pratos vegetarianos. O restante prefere carne.
MP
- A que você atribui essa preferência pelo peixe?
Atala - Eu creio que seja o fato de oferecermos um
produto de qualidade, não que minha carne tenha menos
qualidade que o meu peixe. Antigamente, era mais equilibrado.
MP
- E as bebidas?
Atala - Vinhos, claro.
MP
- Existe alta gastronomia sem vinho?
Atala - Sim, claro. Faculta a cada um sua bebida. Eu não
me ofendo se uma pessoa quer vir ao D.O.M e tomar refrigerante.
Uísque me ofende mais que a coca-cola. Pô, comer
com uísque é sacanagem! Com os anos e a maturidade
profissional a gente começa a entender que comer é
um prazer. E se a pessoa tem o prazer de comer com coca-cola
ou caipirinha, deixe-a ser feliz. A minha felicidade é
ter um restaurante sorridente. O D.O.M não é
um restaurante barato, mas eu acho muito caro ir a um estádio
de futebol e comer um hot dog a R$ 1,50 ou R$ 2,00. Só
que a salsicha é ruim, o pão é ruim,
então é caro. Um hot dog de estádio é
o símbolo do que pode ser caro.
MP
- Quais são seus pratos preferidos da culinária
brasileira?
Atala - Eu não consigo ter preferência, graças
a Deus. Eu sou um profissional da cozinha e a boca é
a minha ferramenta de trabalho. As culinárias que mais
me agradam são a baiana, a mineira e a amazônica,
basicamente essas que agradam a 90% dos brasileiros. Obviamente,
eu gosto muito das carnes. Acho um churrasco sensacional.
A churrascaria e o rodízio se desenvolveram tanto que
o Brasil já exportou essa idéia para os EUA
e Japão. Se a gente conseguir cuidar das cozinhas mineira,
baiana e amazônica como fizemos com o churrasco, elas
serão outros produtos que poderão ser exportados.
Creio que seja muito mais fácil e legítimo treinar
um brasileiro para falar "isto aqui é um quibebe,
isto aqui é um tutu de feijão, isto aqui é
um tucupi" do que ensiná-lo nomes de pratos em
outras línguas que podem ser difíceis de articular.
Se é difícil articular, também é
difícil assimilar.
MP
- O brasileiro precisa descobrir os ingredientes de sua culinária?
Atala - Acredito que sim. Mas, como disse, o Mercado
funciona de acordo com a demanda. Hoje, se você quiser
fazer um grande prato francês ou árabe, você
vai ao Mercadão ou a qualquer gourmet store de São
Paulo e encontra todos os ingredientes necessários.
Se você quiser, porém, fazer um siri catado ou
um pato no tucupi, a gente não consegue todos os produtos
de forma fácil como os ingredientes da culinária
internacional. Falta um pouquinho do orgulho do brasileiro
para conhecer a nossa raiz, a nossa culinária simples.
O que fez da França a maior referência da gastronomia
foi o orgulho do produto caipira francês.
RECEITAS
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Consommé de cogumelos com perfumes de ervas da horta
e da floresta
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Peixe branco com tucupi e tapioca
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Ravioli de banana
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SERVIÇO
D.O.M Restaurante
R. Barão de Capanema, 549, Cerqueira César,
São Paulo
Tel: 3088-0761 / 3891-1311
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