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Azeite: o "líquido de ouro" da culinária grega

A cozinha mediterrânea não economiza o uso de azeite, o óleo extraído da azeitona que é capaz de transformar qualquer prato trivial em iguaria

Os cozinheiros da Grécia Antiga foram os responsáveis pela introdução do azeite na culinária. A gastronomia grega atual compreende uma ampla variedade de pratos, como deliciosas iguarias feitas só com vegetais, guisados ou especialidades de peixe e marisco, cada um deles revelando os prazeres da cozinha do Mediterrâneo.

"É uma culinária muito natural, que sempre 'abusa' do azeite extra-virgem", conta a administradora grega Kalliroe Moissopoulos, residente no Brasil há 50 anos e apaixonada confessa pelo Mercado Municipal da Cantareira. "Até para fritar batatas o grego usa o azeite", completa. Para saladas, um antigo provérbio francês já dizia que para temperá-la muito bem são precisos "um avarento para pôr o vinagre, um generoso para pôr o azeite, um sábio para pôr o sal e um maluco para a mexer".


Para muitos, o azeite grego, além de saudável e nutritivo, realça o sabor do mais simples prato,transformando-o em uma iguaria. No Mercado Municipal, encontra-se o Mykonos e outros

Na Antigüidade Clássica, a Grécia foi o ponto-chave da expansão do uso do azeite, embora a oliveira já fosse cultivada no "Crescente Fértil" há 3.000 anos a.C., na região hoje chamada de Oriente Médio. Um milênio mais tarde, apareceram os relatos sobre grandes olivais que cercavam as cidades. Entre os exemplos está uma inscrição do tempo de Ramsés II (1197-1165 a.C.), descoberta em Heliópolis, no templo do deus Rá. Curiosamente, esse azeite não tinha como principal destino a alimentação, mas fornecer iluminação ao palácio sagrado.

Há de se destacar, ainda, que os povos mediterrânicos têm a dieta mais equilibrada do globo, atingindo altas taxas de expectativa de vida. Homero, suposto autor de Ilíada e Odisséia, grandes clássicos da literatura universal, já classificava esse óleo como "líquido de ouro", assim como Sófocles, um grande entusiasta da oliveira que, para elogiar sua "imortalidade", a denominava "árvore invencível que nasce de si mesma".

 


Graça à sua resistência, a oliveira ganhou a fama de ser imortal. Foram os romanos os primeiros a alimentar essa origem mítica. Na Bíblia, durante o dilúvio virou sinônimo de bons augúrios. Foi com um raminho dessa árvore que uma pomba retornou à arca de Noé e anunciou ao patriarca que havia um terreno seco sobre a terra. O azeite também faz parte dos sacramentos católicos: batismo, crisma e extrema-unção. O Corão também traz referências ao óleo.

Outros grandes nomes da nossa cultura ocidental, como Ovídio, Plínio, Ésquilo e Marcial também fizeram suas referências ao azeite. Símbolo de longevidade, o azeite, além é claro do vinho tinto, é um dos itens que compõem o "paradoxo francês". Trata-se de um estudo dos hábitos alimentares na zona mediterrânea da França que constatou que uma dieta com vinho tinto, hortaliças e frutas são fatores que contribuem para que os habitantes daquela região sejam saudáveis. Tanto o vinho tinto quanto o azeite ajudam a eliminar radicais livres e funcionam como cardioprotetores, como apontam diversos estudos.

Os quatro segredos da gastronomia grega são: o frescor dos ingredientes, o equilíbrio entre ervas aromáticas e temperos, o famoso azeite grego e os métodos simples de preparação. "Na Grécia, existem muitos pratos assados, como pernas de cabrito e carneiro, todos preparados com o azeite, assim como as saladas. Consome-se muito, ainda, o queijo feta; ele é muito especial para os gregos, que o faz com leite de cabra", relata Moissopoulos, que organiza sempre viagens para aquele país.

"E com um ramo de oliveira o homem se purifica totalmente."
Virgílio, Eneida

Nos dias de hoje, a oliveira é a cultura mais intensiva de toda a Grécia, produzindo-se aproximadamente 400 mil toneladas de azeite e, constituindo desse modo, o terceiro maior produto em todo o mundo. Ao longo do tempo, as técnicas de cultivo e de produção de azeite mantiveram-se quase inalteradas; 75% da sua produção é de excelente qualidade, podendo ser consumido sem qualquer tratamento. O azeite virgem grego é, por isso, um produto natural, com um sabor autêntico, um agradável aroma e com muitas propriedades nutricionais.

Excursões para a Grécia - kalliroe@yahoo. com.br

Mitos, lendas e narrativas

Desde sempre, a oliveira tem estado associada a práticas religiosas, a mitos e tradições, a manifestações artísticas e culturais, a usos medicinais e gastronômicos. Na antiga Grécia, as mulheres, quando queriam engravidar passavam longos períodos de tempo à sombra das oliveiras. Da madeira das oliveiras faziam-se cetros reais e com o azeite ungiam-se monarcas, sacerdotes e atletas. Com as folhas faziam-se grinaldas e coroas para os vencedores. A oliveira era considerada símbolo de sabedoria, paz, abundância e glória.

Os egípcios,há 6.000 mil anos, atribuíam a Ísis, mulher de Osíris, deus supremo da sua mitologia, o mérito de ensinar a cultivar a oliveira. Na lenda grega, Palas Atenea, deusa da paz e sabedoria, filha de Zeus, era para os gregos a mãe da árvore sob a qual teriam nascido Remo e Rômulo, descendentes dos deuses e fundadores de Roma, tendo feito brotar a oliveira de um golpe e, na sua grande bondade, ensinado o seu cultivo e o seu uso.
Por sua vez, Minerva oferece aos romanos este presente divino, asilo também da divindade. Cantaram à oliveira Homero, Ésquilo, Sófocles, Virgílio, Ovído e Plínio:

"Uma gloriosa árvore floresce na nossa terra dórica. Nossa doce, prateada ama de leite, a oliveira. Nascida sozinha e imortal, sem temer inimigos, a sua força eterna desafia velhacos, jovens e idosos, pois Zeus e Atena a protegem com olhos insones."
Sófocles, Édipo

Em quase todas as religiões se fala da oliveira, árvore de civilizações longínquas e que tem lugar nos textos mais antigos:

- No Gênesis: a pomba de Noé traz no bico um ramo de oliveira para lhe mostrar que o mundo revive.

- No Êxodo, Javé prescreve a Moisés a "Santa Unção", na qual o azeite se mistura com perfumes raros.

- No horto de Getsêmani vivem ainda oito grandes oliveiras que viram rezar, chorar e morrer Cristo.

- Também o Corão canta a árvore que nasce no monte Sinai e refere-se ao óleo que dela se extrai para ser transformado em luz de candeia "que parece um astro rutilante".


Berço da civilização ocidental, a Grécia possui inúmeros patrimônios da humanidade


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