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O REI BACALHAU!

Clóvis Siqueira*
Colaborador

Originário das águas frias e límpidas dos mares que circulam o Polo Norte, o bacalhau é um alimento milenar: registros mostram a existência de fábricas para seu processamento na Islândia e na Noruega desde o século IX. O mercador holandês Yapes Ypess foi o primeiro a fundar uma indústria de transformação na Noruega, por isso, é considerado o pai da comercialização do peixe industrializado. A partir de então, a demanda pelo peixe passou a crescer na Europa, América e África, o que proporcionou o aumento do número de barcos pesqueiros e de pequenas e médias indústrias pela costa norueguesa, transformando a Noruega no principal polo mundial de pesca e exportação do bacalhau.
Mas os grandes pioneiros no consumo do bacalhau são os Vikings que, ao descobrirem o peixe, passaram a secá-lo ao ar livre (na época o sal não existia) até endurecer - perdendo cerca da quinta parte de seu peso - para poder consumi-lo aos pedaços em suas longas viagens marítimas.

Antes da industrialização do bacalhau, os bascos - cujo território atualmente está espalhado em províncias da Espanha e da França - já comercializavam o bacalhau. Como já conheciam o sal, eles começaram a salgar o pescado para aumentar sua durabilidade. O bacalhau passou a ser comercializado curado e salgado por volta do ano 1000. Os bascos expandiram o mercado do bacalhau, tornando-o um negócio internacional porque o sal não deixava que o peixe estragasse com facilidade. Quanto mais durável o produto, mais fácil era sua comercialização. Como a geladeira só foi inventada no século XX, os alimentos que estragavam rapidamente tinham comércio limitado.

Então, já na idade medieval, o bacalhau ganhou o título de alimento durável e com sabor mais agradável que o dos outros pescados salgados. Para a população pobre que raramente podia comprar peixe fresco, o bacalhau era um prato "cheio" porque era barato e tinha alto valor nutritivo. A soberania da Igreja Católica foi outro facilitador para seu comércio: o catolicismo impunha dias de jejum - que compreendiam as sextas-feiras, os quarenta dias da quaresma e muitos outros dias do calendário cristão - nos quais se proibia a ingestão de comidas "quentes" como as carnes; somente as comidas "frias", como os peixes, eram permitidas. Assim, a carne passou a ser proibida em quase metade dos dias do ano, e os dias de jejum acabaram se tornando dias de bacalhau salgado.
Há mais de dez famílias de bacalhau, e mais de duzentas espécies. Quase todas vivem em águas salgadas e geladas no hemisfério Norte. Peixe da família dos gadídeos, o bacalhau é mundialmente conhecido como Cod e sua principal espécie utilizada para o consumo é o Cod Gadus Morhua. Vivendo em mares com temperaturas entre 1º e 10° graus, o bacalhau é habituado a permanecer sempre na mesma temperatura, por isso, viaja constantemente até encontrar águas ideais para sua sobrevivência. Em geral, é encontrado nos mares da Noruega, Rússia, Islândia, Canadá e Alasca.

A espécie se destaca principalmente por ter rápido crescimento e fertilidade excepcional - as fêmeas chegam a colocar de 2 a 8 milhões de ovos por ano, conforme seu tamanho. A reprodução ocorre entre janeiro e abril e o principal local de desova é no Arquipélago de Lofoten, na região ao Noroeste do Mar da Noruega. Em média, o bacalhau pode viver de 20 a 30 anos.

Graças ao aperfeiçoamento contínuo da indústria pesqueira da Noruega, descobriu-se que, além do Cod Gadus Morhua, existem mais quatro espécies de peixe adequadas à produção de bacalhau. Todas fazem parte da família dos gadídeos, mas cada uma mantém características próprias. Desses peixes aproveita-se praticamente tudo: sua carne é consumida fresca, salgada e seca ou defumada no mundo inteiro. As ovas também são consideradas iguarias; do fígado se extrai óleo e, da bexiga, se faz alguns tipos de cola.

BACALHAU COD GADUS MORHUA
Considerado o mais nobre bacalhau, esse tipo é pescado no Atlântico Norte e apresenta postas altas, largas e coloração palha e uniforme, quando salgado e seco. Depois de cozido, sua carne se desfaz em lascas claras e tenras.

BACALHAU COD GADUS MACROCEPHALUS
Comercializado no Brasil há cerca de dez anos, o macrocephalus também é conhecido como Bacalhau do Pacífico e, em comparação ao morhua, possui coloração levemente mais branca e sua carne não desmancha em lascas, mas pode ser facilmente desfiada.

PEIXE TIPO BACALHAU SAITHE
Possui sabor mais forte e coloração menos clara. Quando cozido, sua carne macia desfia com facilidade. É o tipo perfeito para preparar bolinhos, saladas e ensopados.

PEIXE TIPO BACALHAU LING
O mais estreito entre os peixes tipo bacalhau. Sua carne branca e apetitosa é perfeita para assados, cozidos e grelhados.

PEIXE TIPO BACALHAU ZARBO
É o menor entre os cinco peixes tipo bacalhau. É mais roliço do que o Ling e possui barbatana dorsal contínua. É ótimo para a preparação de pratos desfiados, caldos, pirões e bolinhos.

Classificação qualitativa de peixe salgado e seco

IMPERIAL / SUPERIOR
Nesta categoria, o produto advém de peixes que são inteiramente sangrados, bem lavados e enxaguados até a remoção total dos resíduos intestinais e de sangue, e com a pele da nuca incorporada. O peixe deve estar habilmente cortado e uniformemente salgado e bem prensado, bem como possuir coloração clara, estar sólido e sem manchas. A categoria pode incluir peixes com as seguintes características:

1. barrigas parcialmente sangradas;
2. pequenos rasgos ou rachaduras longitudinais;
3. não enxaguados de forma satisfatória;
4. alguns coágulos de sangue;
5. salgados de maneira não uniforme;
6. secos de modo muito rápido, mas não queimados;
7. um pouco de sangue ressecado nas "collar bones";
8. inadequadamente prensados durante o processo de secura;

UNIVERSAL

Nesta categoria, o peixe não deve possuir coloração amarelada e deve manter o seu formato natural. Marcas de desfiguração, coágulos de sangue seco e resíduos das entranhas devem ser removidos. Em geral, o pescado que não possuir os requisitos de Imperial/Superior deverá ser classificado como Universal. Essa categoria pode incluir peixes com as seguintes características:

1. inadequadamente cortado;
2. rabo redondo;
3. inadequadamente lavado ou enxaguado;
4. remoção insuficiente da espinha dorsal;
5. maiores coágulos de sangue seco;
6. grandes rasgos ou rachaduras longitudinais;
7. moderadas rachaduras;
8. ligeira incrustação de limo;
9. pequenas manchas de sangue, fígado e/ou bílis;

POPULAR
O pescado que não satisfaz os requisitos de Universal, mas que todavia é adequado ao consumo humano, deve ser classificado como Popular.
Contudo, esta categoria não incorpora peixe deteriorado, que tenha sido exposto à contaminação, possua barriga áspera, conteúdo de bílis ou intestinal, ou que esteja muito rachado ou com a carne mole.

PROPRIEDADES NUTRICIONAIS
Pobre em gordura, a carne do Bacalhau da Noruega é rica em vitaminas (tiamina, riboflavina, B12 e ácido fólico), minerais (iodo, selênio). Além disso, possui alta concentração de Ômega 3, ácido graxo presente na gordura do peixe, importante para prevenir a arteriosclerose. O Ômega 3 possui um papel significativo em numerosas funções do organismo, favorecendo principalmente o desenvolvimento do sistema imunológico e contribuindo para a redução dos níveis de colesterol e triglicerídeos, regulando assim a fluidez do sangue.
Além de conter muitos nutrientes, o Bacalhau da Noruega possui excelente rendimento: um quilo tem o mesmo valor nutritivo de dois quilos de peixe fresco e serve de 6 a 8 pessoas.

MANUSEIO E ARMAZENAMENTO

Até chegar à mesa do consumidor, o Bacalhau da Noruega deve preservar a qualidade, a boa aparência e o sabor marcante. Para isso, alguns cuidados devem ser tomados pelos importadores e consumidores. Logo na chegada, os importadores devem transportar e armazenar o pescado em locais com temperatura semelhante à dos containers refrigerados em que são exportados. Assim, é possível evitar que o bacalhau sofra choque térmico ao entrar em contato com a temperatura ambiente. Outras medidas imprescindíveis para preservar suas características nos pontos-de-venda são: nunca estocar o bacalhau ao sol porque ele pode ser cozido pelo calor e umidade ou, ainda, queimado pela exposição direta; manter o local de estocagem com temperatura controlada, entre 2° e 5° graus; armazenar as caixas com o pescado a uma certa distância do solo para não causar umidade; evitar o excesso de caixas empilhadas umas sobre as outras no local de venda, para não danificar as peças de peixe que ficam por baixo; e exibir o bacalhau, preferencialmente, em bancadas refrigeradas e exclusivas.
Antes de ser preparado, o bacalhau deve ser dessalgado e reidratado de acordo com as seguintes instruções. Em 48 horas, deixe o peixe em água corrente durante dez minutos. Depois, coloque-o mergulhado em bastante água fria, na geladeira, por 48 horas. Troque a água a cada seis horas. Em 24 horas, siga o mesmo processo, só que a água deve ser trocada oito vezes. Durante todo o período de dessalga, é preciso manter o bacalhau na geladeira, porque ele precisa permanecer em área refrigerada para ficar mais bem conservado. No final, escaldá-lo com água quente (nunca ferva!) e esperar esfriar para limpá-lo.

QUE VINHO TOMAR?

É muito comum se ouvir a afirmação que com carne se toma vinho tinto e com peixe vinho branco. Realmente tem sentido até um certo ponto. Algumas carnes brancas, de aves, como peru e frango combinam melhor com vinhos brancos, já o pato e a codorna ficam melhores com vinho tinto. No caso do bacalhau a coisa é bem mais complicada, pois ele se harmoniza tanto com branco como com tinto, mas não com qualquer um. O bacalhau tem características muito peculiares e únicas que em contato com o vinho, que por sua vez também tem suas características, provoca uma estranha sensação de metalização na boca. Depois de vários testes chegamos a conclusão que os vinhos que melhor se compatibilizaram foram dois vinhos espanhóis, um branco e um tinto, da região da rioja. O branco produzido com a uva típica da região que é a viura, de preferência fermentado em barrica e o tinto produzido com a uva tempranillo. Vale a pena fazer a prova.

TRADIÇÃO BRASILEIRA


O hábito brasileiro de saborear bacalhau é herança da colonização portuguesa, que começou a se disseminar a partir do descobrimento do Brasil. Mas somente com a chegada da corte portuguesa e dos comerciantes lusos no país, no início do século XIX, que o consumo do pescado foi impulsionado e difundido entre a população. No mesmo período, o Brasil estreita os laços comerciais com a Noruega e começa a importar o Bacalhau: a primeira exportação oficial do produto aconteceu em 1843. Hoje cerca de 95% do bacalhau consumido no Brasil tem sua origem na Noruega. Caracterizado inicialmente como um alimento barato, sempre presente nas mesas das camadas populares, o bacalhau virou artigo elitizado depois da Segunda Guerra Mundial. Como havia escassez de alimentos em toda a Europa, o preço do pescado subiu e seu consumo ficou restrito: passou a ser consumido apenas nas principais festas cristãs.

Com o passar dos anos, o peixe se enraizou à culinária do país e conquistou definitivamente o paladar dos brasileiros, estimulando chefs e apreciadores a prepararem receitas criativas e saborosas. Tanto que se tornou tradição comer bacalhau em épocas festivas e de confraternização como Semana Santa e Natal.

Iguarias com o nobre pescado estão sempre presentes nos bons restaurantes e nos cadernos de receitas das donas-de-casa brasileiras. Graças a sua versatilidade, o peixe pode ser preparado de diversas formas e se adapta a uma infinidade de receitas. O bolinho de bacalhau, por exemplo, é preparado de forma muito peculiar no Brasil e se tornou uma preferência nacional.

RECEITAS
:: Salada de bacalhau andino
:: Bacalhau dourado
:: Bacalhau ao murro

* O autor é consultor enogastronômico em SP
(e-mail:clofranco@terra.com.br).